MORAR FORA

Como lidar com o sentimento de deixar uma vida semi-estável para trás? Como enfrentar um turbilhão de medos que assombram seu ser ao sequer imaginar que tudo pode dar muito errado. Pior, se isso acontecer, como voltar humildemente e pedindo arrego ao seu Brasil varonil ?

Bem, eu não tenho as respostas. 

Não, não se vá! Tenho algo melhor que isso. Tenho um segredo.

Tenho algumas experiências para contar.

Eu não morei fora. Ainda. Confesso que pretendo em breve.

O interessante é que tive por uma peça bem pregada do destino, o prazer

_ agora digo prazer mas quando aconteceu quase arranquei meus cabelos_

de morar por quase um mês na Bélgica.

Resumindo a história: Perdi meu voo. Como comprei a passagem aérea com “pontuação” fui informada pela atendente que somente poderia ir embora quando tivesse vagas desta modalidade no próximo voo. Tendo em vista que da Bélgica partia apenas um voo por dia para o Brasil, era uma chance por dia de finalmente voltar pra casa.  

Tudo isso foi informado, com um sorriso e desdém cruel pela atendente belga. Ela faltou dizer em sonoro inglês: ” It’s not my problem”.

Então, você se depara com o sentimento de total  impotência que somente esses momentos de vulnerabilidade te proporciona.

Conclusão? Quase um mês esperando. Perdi a segunda etapa do vestibular da federal e a conta bancária no vermelho. Bem vermelho.

Não era vantajoso comprar outra passagem. Afinal, a esperança é a última que morre e a qualquer momento poderia aparecer vaga no fatídico voo para o Brasil. 

Ai que tá, quando a situação é tão critica a ponto de você considerar tangivelmente a ideia de socar a  cara da atendente para você ser deportada e voltar pra casa.  O que você faz ?

Nada! Uma filosofa do mundo contemporâneo já disse:

” RELAXA E GOZA”.

Foi o que eu fiz, aluguei um apê. Correndo o risco de devolvê-lo no dia seguinte e perder meus poucos Euros. E fui ter a experiência mais imposta da minha vida.

Parei de pagar de turista e fui pagar de nativa.

Comecei a comprar coisas para cozinhar e coloquei a meta de 15 euros por dia para sobreviver. 

Nessas horas você começa a entender o que é mesmo prioridade, mas também faz gracinha e gasta 8 euros do combinado com chocolate. Chocolate BEL – GA. Colega, não me julgue.

Acredite se quiser, vi uma tempestade de neve e caguei de medo. Tomei o bondinho, que era mais barato que o metrô ( o que eu não fiz no tempo que tinha planejado) . Conheci o dono da lojinha, que riu da minha cara ao contar meu infortúnio.

Tive o prazer de ter minha porta emperrada pela neve. Tive tédio. Muito tédio, quando conheci todos os pontos turísticos da cidade por três vezes. Me reinventei e acabei em uma sala de aula de uma faculdade de artes. Paguei de penetra.

Ai que tá. Quando você viaja com data certa para voltar. Aqueles 15 dias, com tudinho planejado. Isso é uma delicia, mas não é real.

O real é que as histórias mais engraçadas, a parte que você conta ao seu amigo não é aquela ” em que o trem chegou na hora e correu tudo bem” ou que ” seu carro enfrentou super bem a estrada escorregadia de neve” .

Não meu caro, a historia que rende são as dos perrengues. Pois no imprevisto é que você se conhece, quando as coisas saem da linha que você se conecta com seu mais profundo eu.

A vida costuma ser uma rotina. Buscamos conforto. E gostamos de prever, colocar na ponta do lápis. Contabilizar os minutos e tentar dominar o tempo e o acaso. Quando A vida vem e te dá aquela chamada do tipo ” Opa, você não pode prever tudo e tirar MEU brilho de te surpreender” é que a coisa fica interessante.

Morar fora é um pouco disso.

É dizer pra vida :” _ Me surpreenda!”

Claro, isso exige coragem. Exige humildade. E uma grande dose de bom humor.

Bom, eu conseguir voltar pra casa. Estava com saudade do feijão, da coxinha, de andar de camiseta, sem a burocracia que é viver na neve. Voltei com a vida desestruturada, mas com a cabeça cheia.

A ideia de morar fora e me fazer passar por isso varias e varias vezes até que eu me acostumasse nunca saiu da minha cabeça. A certeza que esse friozinho na barriga é a minha maneira de pulsar e sentir viva nunca me deixou.

Acabei de contar o pré requisito para quem quer morar fora.

O friozinho na barriga. Ame-o ou nem tente.

Pronto. Te contei o segredo.

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